sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Uma artificial distinção que passa des(a)percebida



Os homens são tão incapazes de intervir na marcha e nas formas
de um idioma como o são de modificar o matiz ou o contorno
 da folhagem de uma árvore depois de semeada.

(Histoire des révolutions du langage en France, Francis Wey, 1848)


Existe hoje um número tão grande de referências de peso condenando o uso de "desapercebido  como sinônimo de despercebido que talvez seja dispensável citá-las aqui: Cegalla (2010, p. 124), Sacconi (2005, p. 146), Napoleão (1981, p. 81), Kury (1983, p. 110) e outros gramáticos advertem que despercebido significa tão somente não notado, não percebido, ignorado, enquanto desapercebido só pode ser entendido como “desprovido, desguarnecido, desaparelhado, não abastecido” ou, ainda, “desprevenido”, “desacautelado” (estendendo o mesmo critério a seus antônimos, percebido e apercebido, bem como a seus verbos correspondentes, perceber e aperceber). Trata-se de um rigor para o qual, na prática, o português de todos os tempos sempre foi indiferente. Seria essa indiferença fruto dum vício de linguagem ou um uso culto e genuíno que, em algum momento do português, foi deslegitimado e desautorizado?


Esse questionamento é muito justo, porque clássicos e documentos oficiais em língua portuguesa de diversas épocas apresentam perceber, aperceber, desperceber e desaperceber e seus derivados como sinônimos (GRAÇA, 1904). Nenhum dicionário de língua portuguesa, até fins do século XIX, contrariava tal sinonímia, embora todos eles registrassem, também, as demais significações de ambos os termos. A primeiríssima edição do Dicionário de Caldas Aulete definia desapercebido tanto como “desprevenido” e “desacautelado” quanto o “que não foi visto ou notado: Este facto passou a todos desapercebido (AULETE, 1881, p. 475). Ou seja, isso era tão normal e comum que o gramático Júlio Nogueira observou o seguinte, logo após apresentar a alardeada diferenciação entre os dois vocábulos: É distincção util, mas de criação moderna. [o dicionarista António de] Moraes [Silva] não a consigna (NOGUEIRA, 1929, p. 34).



Primeiríssima edição do Dicionário Caldas Aulete (Lisboa, 1881)

Criação moderna, dizia o gramático nos anos 20. Quando e onde, então, essa sinonímia passou a ser condenada gramaticalmente? E – não menos importante – quem teria criado essa distinção?

Pois bem: tudo começou com um purista lusitano chamado António da Silva Tullio (1818-1884), cunhado do dicionarista português Júlio Caldas Aulete (sim, aquele que acabamos de citar) escritor, historiador e bibliotecário, o inventor da distinção entre despercebido e desapercebido (FIGUEIREDO, 1960, p. 226). Ele disseminou essa cagação de regra a partir dum artigo publicado em Estudinhos da lingua patria e numa edição de Archivo Pittoresco (vol. III, 1860):


É trivial ouvirmos e lermos em lettra redonda: Não passou desapercebida a sua observação, tal pessoa, objecto ou allusão. Fulano fez-se desapercebido, ou fiz-me desapercebido. N'estas, e em outras muitas phrases vulgares que ora nos não lembra, erra-se vergonhosamente a natureza do verbo desaperceber, e a sua regencia. Desaperceber, que ordinariamente se usa no particípio desapercebido, é verbo activo, e significa desapparelhar, desarmar, desprover, e também desavisar, desprevenir. Desperceber e despercebido, é não ter ou não ser percebido, não entender, não reparar. Já se vê que este verbo tem accepção e natureza mui diversa d'aquell'outro, e usa-lo pelo modo apontado nas locuções que acima transcrevemos, é barbarismo intolerável. Deve-se, pois, dizer: Não passou despercebida a sua allusão. Fulano fez-se despercebido, isto é, desentendido, etc. [...] Basta o pouco que fica dito, para que os escriptores principiantes evitem erro tão crasso... (TULLIO, 1860, p. 31).


Artigo a partir do qual o purista lusitano deu origem,
no português, à reprovação da sinonímia entre
desapercebido e despercebido
Conforme conta o filólogo Heráclito Graça (1837-1914), imortal da ABL, em Portugal muitos acharam procedente a engenhosa doutrina, e aqui no Brasil muita gente ilustrada louvou e encareceu a sutileza, como a expressão da verdade, reputando erro crasso atribuir a desapercebido significação idêntica a de despercebido, e tudo isso sem maior exame da matéria (GRAÇA, 1904). Um bom exemplo  é o purista-mor Rui Barbosa, que reclamava que muita gente de alto cothurno usa desapercebido no lugar de despercebido (BARBOSA, 1904).1

O filólogo brasileiro não parou por aí: fez exaustiva pesquisa documental e literária para escancarar a artificialidade dessa condenação, contestando devidamente a distinção profunda que ele [Silva Tullio] imaginou entre desapercebido e despercebido (1904, p. 188). Para começar, ele observa que Silva Tullio já se contradiz ao dar a desapercebido, além do sentido de desaparelhado, desprovido, desarmado, o de desavisado e desprevenido, que são sinônimos de desatento, inadvertido e distraído.
Em seguida, apresenta grande número de citações literárias que evidenciaram a contradição entre a regra inventada por Silva Tullio e a lição dos clássicos. Suas notáveis pesquisas (coligidas em obra que, originalmente, havia sido concebida para refutar os diversos rigores de outro lusitano, Cândido de Figueiredo, um dos maiores puristas da história da língua portuguesa) podem ser conferidas neste livro.

Outras raras observações como essa feita pelo filólogo da ABL (PINTO, 1924, p. 98-99; NOGUEIRA, 1929, p. 34) não tiveram vez na Belle Époque brasileira — que coincidiu com a era de ouro do purismo linguístico —, sendo sufocadas pela adesão generalizada a essa forçada diferenciação.

Hoje em dia, é uma [cagação de] regra presente em tantas obras de referência e em tantas listinhas de erros mais comuns da língua portuguesa que dificilmente uma pessoa culta questionaria ou contestaria o porquê da diferença de sentido  — se dicionários gerais, dicionários de sinônimos e outras obras de referência não dissessem o contrário.

É justo e forçoso destacar a honestidade e a nobreza daqueles que, educados por esse critério, redigiram criativos exemplos a fim de tentar demarcar uma sutil diferença2 entre as duas palavras:
[...] daqui para a frente o nosso prezado leitor não será mais pego desapercebido (desprevenido) em relação aos parônimos, assunto que até então talvez tenha lhe passado despercebido (não notado) (CARVALHO, 2004, p. 155).

Todavia, na prática, a teoria é outra. A distinção pretendida pelo autor supracitado é tão artificial que, na prática, pouca gente a faz:

desapercebido é adjetivo pouco usado no sentido próprio, mas muito utilizado como sinônimo de despercebido, razão pela qual os dicionários registram a sinonímia, alegando também o fato de terem encontrado esse emprego pouco "puro" em bons autores do século XX (PIACENTINI, 2012, p. 119).

A assertiva acima é reforçada pelo Guia de uso do português, no qual a linguista Maria Helena de Moura Neves apresenta os resultados de minuciosa pesquisa em um corpus de mais de 80 milhões de ocorrências. No verbete desapercebido, é informado que tal termo, na acepção de desprevenido ou desacautelado, não foi encontrado nenhuma vez [nesse corpus]; apenas ocorreu confundido com despercebido (NEVES, 2003, p. 252).3  Fica claro, ao se ler confundido, que a língua culta (vale observar que esse corpus abrange textos dos tipos romanesco, oratório, técnico-científico, jornalístico e dramático) não vê a menor diferença nisso...

Obviamente, há quem proceda de acordo com a forma oficial (e artificial) por força da norma. Ainda assim, isso não se dá de modo espontâneo e tampouco generalizado, conforme vimos no parágrafo anterior. Ainda mais se considerarmos o outro sentido dado a desapercebido: o de desprovido, desguarnecido, desaparelhado, não abastecido, que talvez possamos já considerar em total desuso:

Os exemplos que aparecem, de desapercebido com o velho sentido, acham-se em escritores apegados a velharias ou em escritores que procuram escrever difícil, para impressionar. Não se pode hoje [ele estava dizendo isso em plenos anos 50] negar à língua o direitto de introduzir as modificações fonéticas, semânticas ou de outra natureza, que sejam adequadas à sua melhor expressividade (NASCENTES, 1957, p. 175).


autor supracitado é outro grande filólogo que investigou o caso: Antenor Nascentes (1886-1972). Vale observar aqui que, inicialmente, ele reproduzia a mesma prescrição de seus colegas e contemporâneos: "Não confundir despercebido com desapercebido" (NASCENTES, 1941, p. 53)4. Todavia, na década seguinte, com o lançamento do magnífico Dicionário de sinônimos (um dos melhores, se não o melhor dicionário de sinônimos da língua portuguesa, que não só registra os termos, mas os define, apontando diferenças, sutilezas e até exemplificando-os), ele contesta essa "confusão" e explica a razão da sinonímia, apresentando abordagem diferente à de Heráclito Graça:
Desapercebido significou desprovido, desaparelhado (do necessário). Despercebido significa não percebido não percebido. Aconteceu que, por influência do francês (queira-se ou não, o francês influiu), o verbo aperceber-se, que significa prover, aparelhar, arcaizou-se neste sentido e passou a viver com o significado de perceber pelo sentido da vista e transmitiu este novo significado ao seu antônimo. Assim desapercebido passou a significar, do mesmo modo que despercebido, o que não é notado. Talvez tenha concorrido para isso a sua estrutura, onde o prefixo a, quebrando a relativa aspereza do grupo sp, concorreu para melhor constituição das sílabas (NASCENTES, 1957, p. 217).


Toda essa realidade vai, obviamente, refletir-se sobre a lexicografia. Embora seja possível identificar um quase consenso entre as principais autoridades da norma-padrão sobre a diferença entre esses parônimos, a maioria dos dicionários, baseado na língua de fato e na literatura, sempre ignorou isso. É o Dicionário da própria Academia Brasileira de Letras (!) que registra, sem rodeios:

desapercebido adj. 1. Que não foi notado; despercebido: O fato passou desapercebido (a todos). 2. Desprovido (do necessário): O hospital está desapercebido de medicamentos (ABL, 2o08, p. 407).

Já o Houaiss, além de também dar tais palavras como sinônimas, sentencia:

Os parônimos desapercebido e despercebido foram objeto de censura purista, acoimados de falsa sinonímia, em que o contraste entre aperceber 'aparelhar' e perceber 'notar, observar', prefixados com des- (negativo, privativo), era transferido para os seus derivados; no entanto, ante o emprego desses dois vocábulos como sinônimos por autores de grande expressão quer no século XIX como em inícios do século XX, como Castilho, Camilo, Rebelo da Silva, Garcia Redondo etc., a rejeição faz-se inaceitável (HOUAISS, 2001, p. 955).

E o Aurélio não fica atrás. No verbete aperceber, enfatiza sua sinonímia com perceber e ainda dá uma esculachada em quem condena isso:

É excelente – e não condenável, como querem puristas maníacos – o uso de aperceber nas acepções de notar, ver, distinguir, perceber (FERREIRA, 1975, p. 114). 

O tradicional Dicionário de sinônimos e antônimos de Francisco Fernandes registra desapercebido e despercebido como sinônimos (FERNANDES, 2008, p. 279). E. ainda que indiretamente, seDicionário de regimes de substantivos e adjetivos legitima isso com abonação em clássico da literatura:

desapercebido – para: "Os amôres de Corday com o marquês tinham passado desapercebidos para a sociedade de Caen (Camilo Castelo Branco, Livro Negro de Padre Dinis, 52) (FERNANDES, 1971, p. 129).

Vários dicionários de sinônimos do português dão despercebido = desapercebido, como o Dicionário de sinônimos e antônimos (MORAIS; PENA, 1969, p. 135). O lusitano Dicionário de sinónimos da língua portuguesa registra desperceber = desaperceber (MELO, 1949, p. 306).  Já outros que também não apresentam tais termos como sinônimos acabam estabelecendo, ainda que indiretamente, a sinonímia. O antigo Dicionário de antônimos e sinônimos da língua portuguesa do MEC diz que despercebido significa "desatento, desprevenido, desacautelado" (SCHWAB, 1974, p. 340) e que desapercebido é "desprevenido, desacautelado, descuidado" (SCHWAB, 1974, p. 286)... Ou seja, são a mesma coisa.

O já citado Celso Luft não tem um dicionário de sinônimos, mas, em seu Dicionário Prático de Regência Nominal, registra uma forma como variante da outra:
desapercebido (variante de despercebido, v.) a (ou, menos us., para), de: Algo (que passa) desapercebido a (ou de) alguém. Essa passagem reveladora... parecer ter passado desapercebida completamente a todos os que se ocuparam dessa ficção [O mistério da Tijuca, de Aluísio Azevedo] (LUFT, 2010, p. 155).
despercebido (ou desapercebido, v.) a (ou, menos usado, para), de: Fato despercebido a (ou de) alguém. [...] de: Despercebido [desprevenido; desatento] de algo. [...] Surpreenderam os holandeses, despercebidos da conspiração (Pedro Calmon: Cruz) (LUFT, 2010, p. 167).

É também este autor que, entre os gramáticos, demonstra ser um dos poucos dispostos a peitar a cagação de regra oitocentista. Para ele, o significado de despercebido como desatento, desacautelado foi o que abriu porta para a variância com desapercebido, que é muito usual como 'não percebido, não notado' – ou seja, variante mórfica de despercebido (LUFT, 2010, p. 114 e 118).

Soma-se a Luft o gramático Júlio Nogueira,  que nos anos 50 observava, após relatar todo o esclarecimento feito por Graça, que, apesar disso, a diferença vem sendo disciplinarmente respeitada. Êrro, porém, não há. Pode-se dizer: passou desapercebido ou despercebido. E kif kif, com dizem os árabes” (NOGUEIRA, 1956, p. 36).

Após todos esses lúcidos pareceres, é lamentável notar que eles estejam devidamente ofuscados pela massa de gramáticos — e dicionaristas também — que reproduzem a invencionice de um purista cretino do século XIX. Tal conflito entre o uso e a norma não passou des(a)percebida nem mesmo do professor Pasquale, que, em artigo publicado na Folha de S. Paulo nos anos 90, observou:
Se uma pessoa passa e ninguém nota, ninguém vê, essa pessoa passa “despercebida" ou “desapercebida”. Sim, de acordo com os dicionários, pode-se usar uma ou outra. O mais interessante – e preocupante – é que nos vestibulares não se costuma aceitar “desapercebido” nesse tipo de frase, o que no fundo é mera idiossincrasia (CIPRO NETO, 1998).

Como se vê, prevalece na sociedade a visão utilitarista da língua: Manda quem prescreve; obedece quem quer passar em concurso. O concurseiro e o vestibulando precisam obedecer aos arautos da norma-padrão para garantir sua aprovação; o revisor de texto poderá ter sua competência questionada se não atentar para essa distinção em suas correções. Todavia, parece inútil tentar policiar e contrariar a sinonímia, já que a própria língua não faz qualquer esforço em atentar para a artificial distinção que acaba passando des(a)percebida.




1 Influenciou também, como era de se esperar, vários dicionários de sinônimos, sendo digno de nota o de Rocha Pombo: “Quando se diz que uma pessoa está desapercebida, enuncia-se a idéa de que essa pessoa não se apercebe, não dá pelo que aparece, pelo que se diz, ou pelo que se passa em torno. Significa ainda, além de desatento, como abstrato ou inconsciente – desprevenido, desacautelado. – Despercebido quer dizer – 'que não é visto, que não chama atenção, que passa como ignorado, como não pressentido'.” (POMBO, 1914, p. 431).

2  A prova do quão artificial é a tentativa de estabelecer uma sutil diferença entre os dois termos pode ser vista no Dicionário de erros correntes da língua portuguesaDespercebido significa desatento; desapercebido significa desprevenido (MEDEIROS; GOBBES, 1991, p. 61). Ora, todos os demais autores que prescrevem essa distinção (como Rocha Pombo) dizem que desatento significa desapercebido, e não despercebido. Algo parecido ocorre em Schwab (1974, p. 286 e 340), autor do antigo dicionário do MEC, conforme vimos acima.

3 Cumpre observar que, apesar do que a autora informa, ela não endossa desapercebido como sinônimo de despercebido, descrevendo tal caso como "emprego que não tem aceitação [normativa] (NEVES, 2003, p. 252). 

4 Todavia, talvez nunca tenha concordado, nem mesmo antes, já que diz em seu prefácio: Embora não concorde com todas as pequeneses inventadas pelos puristas, exponho-as para livrar o candidato [o aluno] de incorrer na pecha de ignorá-las. Conforme bem observou Marli Quadros Leite em Metalinguagem e discurso: a configuração do purismo brasileiroRegistre-se que, como vigorava o império da norma clássica, mesmo autores que não tinham índole purista, como Antenor Nascentes, publicou obra com tal característica, intitulada Dicionário de dúvidas e dificuldades do idioma nacional(LEITE, 2006, p. 133).


REFERÊNCIAS


ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da língua portuguesa. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.

ALMEIDA, Napoleão Mendes. Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: Caminho Suave, 1981.

AULETE, Francisco Júlio de Caldas. Novíssimo Aulete: dicionário contemporâneo da língua portuguesa. Organizado por Paulo Geiger. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011.

AZEVEDO, Francisco Ferreira dos Santos. Dicionário analógico. Ideias afins / thesaurus. 2. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.

CARVALHO, Castelar de. Parônimos. In: BECHARA, Evanildo; RODRIGUES, Antônio Basílio; FREITAS, Horácio Rolim de. Na ponta da língua. v. 6. Rio de Janeiro: Lucerna; Liceu Literário Português, 2004.

CIPRO NETO, Pasquale. A tapa e o desapercebido. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 ago. 1998. Inculta & Bela. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff06089817.htm>. Acesso em 3 nov. 2015.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

HOUAISS, Antônio. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LUFT, Celso Pedro. ABC da língua culta. São Paulo: Globo, 2010.

______. Dicionário prático de regência nominal. 5. ed. São Paulo: Ática, 2010.

FERNANDES, Francisco. Dicionário de regimes de substantivos e adjetivos. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1971.

______. Dicionário de sinônimos e antônimos da língua portuguesa. 43. ed. São Paulo: Globo, 2008.

FIGUEIREDO, Antônio Joaquim de. Aspectos da vida e do estilo de Clóvis Beviláqua. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1960.

GRAÇA, Heráclito. Factos da linguagem. Rio de Janeiro: Livraria da Viúva Azevedo, 1904.

KURY, Adriano da Gama. 1000 perguntas: português. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1983.

MEDEIROS, João Bosco; GOBBES, Adilson. Dicionário de erros correntes da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

MELO, Alfredo Leite Pereira. Dicionário de sinónimos da língua portuguesa. Lisboa: Tertúlia Edípica, 1949.

MORAIS, Orlando Mendes; PENA, Leonam de Azeredo. Dicionário de sinônimos e antônimos. v. 1. 8. ed. Rio de Janeiro: Spiker, 1969.

NASCENTES, Antenor. Dicionário de dúvidas e dificuldades do idioma nacional. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1941.

______. Dicionário de sinônimos. Rio de Janeiro: Livraria Atlântida, 1957.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de uso do português. São Paulo: Unesp, 2003.

NOGUEIRA, Júlio. A linguagem usual e a composição. Rio de Janeiro: Livraria Editora Leite Ribeiro; Freitas Bastos, 1929.

______. Indicações de linguagem: resposta a várias consultas e lições práticas para o bom uso da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1956.

OLIVEIRA, Rui Barbosa de. Réplica. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904. 

PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz Piacentini. Não tropece na língua: lições e curiosidades do português brasileiro. Curitiba: Bonijuris, 2012.

PINTO, Pedro A. Termos e locuções: miudezas de linguagem luso-brasileira. Rio de Janeiro: Tipografia Revista dos Tribunais, 1924.

POMBO,  José Francisco da Rocha. Dicionario de sinonimos da lingua portuguesa. Rio de Janeiro: Francisco Alves & Cia., 1914.

SACCONI, Luiz Antonio. Dicionário de dúvidas, dificuldades e curiosidades da língua portuguesa. São Paulo: Harbra, 2005.

SCHWAB, Artur. Dicionário de sinônimos e antônimos da língua portuguesa. Rio de Janeiro: MEC; Fename, 1974.

TULLIO, António da Silva. Estudos da lingua materna. In: ______ (Org.). Archivo Pittoresco. Semanario illustrado. v. III. Lisboa: Castro, Irmão & C., 1860. p. 31.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Statu quo" versus "status quo"

A expressão latina in statu quo res erant ante bellum (no estado em que as coisas estavam antes da guerra) foi concebida no latim diplomático do século XVI, quando passou a ser usada em tratados de paz, nos quais os beligerantes (ou litigantes) aceitavam voltar à situação anterior à guerra (ou ao litígio) (CEGALLA, 2009)No século XVII, surgiu a redução in statu quo, que, a partir do século XIX, se reduz ainda mais para statu quo, sofrendo concorrência, em algumas línguas europeias, da variante status quo. De acordo com Houaiss (2001, p. 1626),

por influência do inglês, divulga-se, no século XX,* a forma status quo, algo híbrida, por uma sintaxe em que status é [caso de declinação] nominativo e quo continua no [caso de declinação] ablativo, perdendo-se razão de ser da braquilogia.

An etymological dictionary, William Grimshaw (1821)
Para o gramático latinista Napoleão Mendes de Almeida, a expressão se cristalizou na forma ablativa [statu], que é assim usada substantivadamente com qualquer função sintática”, sendo infundados os raciocínios para justificar status quo (ALMEIDA, 1981, p. 304). Tal como Houaiss, ele acusa a língua inglesa pelo uso que fazemos em português:  “o culpado da intromissão em nosso idioma da forma status quo é o inglês, onde existe status como forma comum (ALMEIDA, 1981, p. 304).


Muitos latinófilos provavelmente concordam com esse parecer do Napoleão e o dão como definitivo. Todavia, para a infelicidade deles, a influência inglesa que nos legou a forma consagrada por estas bandas (em uso pelo menos desde o início do século XIX) veio para ficar. Gramáticos, filólogos, dicionaristas, manuais de redação e obras de referência diversas já abraçaram e disseminaram a heresia, e tudo indica que ela já se tornou doutrina...

Em alguns registros, chega-se a afirmar que a variante condenada por Napolatim é justamente aquela pela qual se tem preferência: o dicionarista Aurélio registra status quo, informando ser esta forma preferível a statu quo” (FERREIRA, 2009), com o que concorda o gramático Gama Kury, dizendo ser status quo forma que se prefere a statu quo (KURY, 1983, p. 123).

Outros gramáticos também abonam status quo: “É menos usada a forma correta original statu quo (CEGALLA, 2009, p. 369); status quo é a forma usual; mas puristas descobriram que ‘deve’ ser statu quo, ambas as palavras no ablativo...” (LUFT, 2010, p. 459). A eles, une-se até um imortal da Academia Brasileira de Letras, Domício Proença Filho: A construção com s é mais usual do que statu quo” (PROENÇA FILHO, 2003, p. 118). Os manuais de redação de jornal como os do Estadão (MARTINS FILHO, 1997) e dos Diários Associados (SQUARISI, 2005) ignoram a forma latina original, registrando apenas a mais usual, do mesmo modo que Sacconi (2013, p. 844), Ernani & Nicola (2o03, p. 230), Gobbes et al. (1995, p. 124) e Neves (2003, p. 722).


E o crime de lesa-latim não para por aí: um manual de redação oficial faculta o uso entre statu e status (OLIVEIRA, 2005, p. 244), o que se dá também num manual de português jurídico: Admite-se também a forma status quo (PAIVA, 2013, 1999). O grande filólogo português José Pedro Machado, autor de Estrangeirismos na língua portuguesa, também faculta o uso: Também se usa status quo” (MACHADO, 1994, p. 224).

É verdade que vários dicionários (como o Houaiss) registram apenas a forma original (statu quo) e que várias outras obras prescrevem a mesma lição. No entanto, com tantas referências de peso e prestígio (Luft, Cegalla, Sacconi, Gama Kury, Aurélio etc.) legitimando status quo, não é de se estranhar que tanta gente língua afora continue usando a forma condenada por Napolatim. De fato, uma consulta em ferramentas de busca por edições anteriores de vários jornais (EstadãoFolhaO Globo, Correio Braziliense etc.) evidencia o quanto status quo é mais usual. É a forma que aparece registrada, por exemplo, em várias dezenas de ocorrências do clássico acadêmico Dicionário de política, de Norberto Bobbio.

Conclusão: os latinófilos pregarão statu quo e ponto final; o professor atento ensinará — e o revisor criterioso grafará — statu quo; todavia, duvido muito que ainda assim consigam um dia virar o jogo contra a variante, consagrada pelo uso e abonada por inúmeras obras de referência.


* Engano do Houaiss. Há vários livros, publicações, jornais e documentos brasileiros do início do século XIX que já vinham utilizando status quo.


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Napoleão Mendes. Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: Caminho Suave, 1981.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.

DE NICOLA, José;  MENÓN, Lorena; TERRA, Ernani. 1001 estrangeirismos de uso corrente em nosso cotidiano. São Paulo: Saraiva, 2003.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2009.

GOBBES, Adilson et al. Erros correntes da língua portuguesa: dicionário de questões de linguagem. São Paulo: Atlas, 1995.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

KURY, Adriano da Gama. 1.000 perguntas: português. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1983.

LIMA, Antônio Oliveira. Manual de redação oficial. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

LUFT, Celso. ABC da língua culta. São Paulo: Globo, 2010.

MACHADO, José Pedro. Estrangeirismos na língua portuguesa. Lisboa: Editorial Notícias, 1994.

MARTINS FILHO, Eduardo Lopes. Manual de redação de O Estado de S. Paulo. 3. ed. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de uso do português. São Paulo: Unesp, 2003.

PAIVA, Marcelo. Português jurídico. Brasília: Leya, 2013.

PROENÇA FILHO, Domício. Por dentro das palavras da nossa língua portuguesa. Rio de Janeiro, Record, 2003.

SACCONI, Luiz Antônio. Minidicionário Sacconi. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.

SQUARISI, Dad. Manual de redação e estilo. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 2005.

sexta-feira, 20 de março de 2015

(em) alto e bom som

Nunca imaginei que alguém encrencasse com a locução adverbial em alto e bom som nem jamais encontrei um autor que a condenasse. Daí meu espanto ao ver uma dessas páginas no Facebook sobre dicas de português informando:

A expressão “alto e bom som” deve ser usada sem a preposição “em” por mais estranho que pareça. Exemplos: “Falei alto e bom som”; “Ele disse alto e bom som que a idolatrava”.

Como volta e meia essas páginas dizem absurdos, inventando regras e enxergando erros onde eles não existem, e por me causar estranhamento (como a própria página virtual admite) a expressão sem preposição, meu primeiro impulso foi achar que aquilo não tinha fundamento nenhum. Eis que me surpreendo (de novo!) com o parecer de dois gramáticos:

A expressão original e correta é alto e bom som, e não em alto e bom som. A deturpação se deve, provavelmente, à influência de em tal voz (CEGALLA, 2008, p. 32).
É esta a expressão perfeita, ou seja, sem a anteposição da preposição em: dizer alto e bom som, ou seja, dizer abertamente, em voz alta e clara, sem receio de ser ouvido (SACCONI, 2005, p. 31).

Ué... Se, como diz Cegalla, a expressão original não tinha preposição, então a alegada deturpação começou faz muuuuuito tempo, pelo menos desde o século XIX. Nesse dicionário lusitano de 1842, temos:


Dicionário de Antônio Maria do Couto (1842).

Em sua tradução de A formosa lusitânia (1877), o escritor português Camilo Castelo Branco grafou:

A formosa lusitânia (1877), tradução de Camilo Castelo Branco.


Os exemplos encontrados em textos literários e oficiais de tempos antigos, tanto lusitanos quanto brasileiros, não são poucos, comprovando que essa forma já era bem usual sabe lá Deus desde quando... O fato é que a forma sem preposição — se veio mesmo antes — vem perdendo cada vez mais espaço para a locução com em. De acordo com a linguista Moura Neves,

por causa do significado da expressão, em geral se entende que ela deve ser iniciada por preposição (em alto e bom som): essa expressão com preposição é mais usual (64%) que a expressão sem preposição. ♦ Penso em tantas vozes bradando em alto e bom som contra "imoralidade" dos costumes (Otaviano Pereira) (NEVES, 2010, p. 60).

Fundamentando a citação acima, temos o registro de vários dicionários, que apresentam o uso facultativo, com e sem a preposição: 

(em) alto e bom som: abertamente, sem dissimulação ou subterfúgio (HOUAISS, 2009).
em alto e bom som. Ver alto e bom som: “Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e bom som para que ele o não ignorasse, mas ela amava-o” (Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos e Fantasias, p. 25) (FERREIRA, 2009). 
(em) alto em bom som: em voz alta e sem receio das consequências; altivamente: O jornal proclama em alto e bom som não ter o rabo preso com ninguém (BORBA, 2005).


Em outros dicionários, é possível encontrar apenas a forma sem preposição. Já o dicionário da Academia Brasileira de Letras registra apenas a forma mais usual, com preposição:

em alto e bom som: com clareza: Ele disse em alto e bom som que pediria demissão do cargo (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2008, p. 1195).

Corroborando todo esse uso, temos o parecer do gramático Celso Luft, para quem a locução com em sofreu variação, apresentando variante sem preposição:

alto e bom som – Declarar (fazer, dizer, proclamar etc.) alto e bom som que... Expressão adverbial onde houve a supressão da preposição em: em alto e (em) bom som (LUFT, 2010, p. 43).

Concordando com Luft, em outra obra de referência, no Dicionário de erros correntes da língua portuguesa, temos:

Alto e bom som. Expressão indicativa de clareza, com todas as letras: Fulano falou em alto e bom som (MEDEIROS; GOBBES, 1999, p. 16).

Assim sendo, apesar da resistente tradição gramatical que infelizmente ainda obsedia alguns autores, não vejo motivo que nos impeça de dizer na língua culta, em alto e bom som, a locução com preposição. Todavia, o uso é facultativo e fica a gosto do freguês.



Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da Língua Portuguesa. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.

BORBA, Francisco da Silva (Org.). Dicionário Unesp do português contemporâneo. São Paulo: Unesp, 2004.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.

COUTO, Antonio Maria do. Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza. Lisboa: Typografia de Antonio Joze da Rocha, 1842.


FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.  5. ed. Curitiba: Positivo, 2009.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.

JACKSON, Lady Catharine Hannah Charlotte Elliott. A formosa lusitânia. Tradução, prefácio e anotações de Camillo Castello Branco. Porto: Livraria Portuense, 1877.

LUFT, Celso Pedro. ABC da língua culta. São Paulo: Globo, 2010.

MEDEIROS, João Bosco; GOBBES, Adilson. 
Dicionário de erros correntes da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de uso do português.  2. ed. São Paulo: Unesp, 2010.

SACCONI, Luiz Antonio. Dicionário de Dúvidas, dificuldades e curiosidades da Língua Portuguesa. São Paulo: Harbra, 2005.